18.2.12

 



Caros amigos,


Não sei vocês, mas têm dias que amanheço compreensivo; tolerante;
sem crise; acreditando na boa intenção das pessoas ou, simplesmente, entendendo que todos têm suas dificuldades e limitações que devem ser respeitadas etc.


Já, noutros dias, pra mim tanto faz! Não me importa se alguém tem um problema ou está passando por dificuldades. O que me interessa é que não me perturbe, quero é que me
erre! E, até mesmo quando me acertam, faço de conta que não é comigo e sigo em frente.


Porém, num belo dia (6/8/6) não foi, nem de um jeito, nem de outro!


Acordei num daqueles dias em que o justo é que todos me respeitem como eu respeito a todos! Nesses dias, nada mais lícito do que defender com unhas e dentes todas as minhas razões. Afinal, como se diz, o seu direito termina onde começa o direito do coleginha.


Assim, logo cedo, armei-me de minhas sete pedras e com elas em punho fui pra vida, não disposto a agredir ninguém gratuitamente, não se não fosse provocado, por que desaforo não se leva pra casa, claro!


Veja-se, apesar da sanha nos olhos, em mente só tinha intenções retas, tanto que, nesse dia, mais do que de costume, preocupei-me em ser o mais correto, respeitoso e cortês; não me permiti, sequer por culpa (negligência, imperícia ou imprudência), quanto menos por dolo (intencionalmente), invadir o espaço alheio. Fui além... como sucede com a mulher de
César, mais que honesto, fiz-me aparentar honesto.


Porém, o dia correu mais tranqüilo do que inicialmente imaginara. Fui ao parque da cidade com as gatas aqui de casa; praticamos
tae chi (essa, pelo menos, foi a intenção!); tomamos água de coco; no almoço, deliciosa massa com molho de tomate e ervas finas, cervejinha... e que belíssimo sono depois da bóia!



Tudo isso, claro, amainou consideravelmente a minhas disposições e suavizou o meu semblante.

Então! Tudo muito bom, tudo muito bem, mas ainda tinha que ir ao supermercado, às compras da semana.



E lá fui eu. Seção de carnes; horti-fruti (estavam ótimas!); cereais; laticínios etc; seguindo minha lista fielmente, sem ceder às armadilhas traiçoeiras do consumo. Enfim, o fim. Terminei e me dirigi ao caixa preferencial, pois estava com a Julinha (sic, com sotaque).


Eis que dei azar! Pois não é que, quando percebi, encontrava-se à minha frente (na fila) uma daquelas
peruas toda emperequetada, cheia de jóias, falando no seu motorola, gesticulando com ares de soberba e olhando todos do alto para baixo.

 
Como é que uma sujeita daquela tinha tamanha cara-dura? Numa fila preferencial; sem motivo para tal; e na frente de uma pessoa (eu) com criança de colo e de uma senhora de idade, a quem, aliás, eu já tinha dado a vez.



Absurdo! Completo desrespeito! Imperdoável!


Nesse momento, já tinha esquecido todo o bem que aquele dia agradável tinha me feito e a hostilidade matinal devolveu-me o aspecto
azedo-esverdiado. Armei-me novamente das minhas pedras, as quais ainda trazia no bolso perto do peito, e, em posição de ataque, investi contra aquela que parecia ser a mais justificável das vítimas.



Aliás, vítima nada! Mas sim, injusta agressora que sem o menor pudor afrontava o direito alheio.



Na verdade, em relação às transgressões de fila, há muito tenho uma opinião formada. Pra mim, aquele que fura uma fila ou desrespeita as preferências estabelecidas em lei ou impostas pelo bom senso, demonstra total desprezo pelos seus semelhantes e é capaz de qualquer atitude vil, quem sabe, talvez, até matar ou roubar...


Continuando... dirigi-me à transgressora, com necessária educação, porém com a firmeza que a situação demandava e, implacavelmente, ordenei que saísse daquela fila, pois ela não tinha direito de ali estar, dizendo ainda que a sua conduta é digna de um abjeto, era verdadeiramente execrável e que ela deveria se envergonhar do que estava fazendo etc! Isso mesmo! E coisa... e tal...



Contudo, qual não foi a minha surpresa?


Ela olhou pra mim com consternação sem tamanho e, quase sem voz, desculpou-se com uma humildade desconcertante, afirmando que tinha se enganado, pois não tinha visto a plaqueta indicativa de caixa preferencial etc.


Só então, vi o que a minha prepotência tinha impedido, que aquela senhora, de fato excessivamente bem vestida, estava um tanto transtornada e que, pelo visto, tinha algo a ver com o assunto tratado ao celular, o que certamente a levou ao erro.


E, ao passo em que ela se afastava da fila renovando as escusas, aquela minha altivez e foi cedendo lugar ao sentimento de “putz, v a c i l e i”!


Aí, já se viu a situação: aqueles olhares de reprovação que antes fitavam a
fura-fila, voltaram-se, mais severos ainda, para mim; e eu não sabia se continuava com o peito estufado e cheio de razão ou externava o “putz, v a c i l e i”!


Francamente, nem sei o que fiz, dei um jeito de me desvencilhar o mais rápido possível do pagamento das compras e, mudo, surdo e sego, retirei-me do recinto.


No caminho de volta pra casa, intimamente, ainda caí na besteira de tentar justificar a minha atitude, pois... eu estava coberto de razão, tanto assim, que só o fato de a mulher ter se desculpar e saído bastava para atestar a minha correção.


Mas logo me dei conta de que não basta ter razão, não basta ter direito, é necessário que se tenha o mínimo de razoabilidade e autocrítica e de maneira preventiva, principalmente! Não se pode ceder à
arrogância dos justos, pois orgulho do homem santo é o que o arrebata do céu.

Em verdade, a minha conduta, longe da de um homem justo, revelou-se típica de um justiceiro que, em essência (somente talvez em grau) não discrepa do inquisidor que queimava bruxas, ou, em termos mais atuais, dum radical religioso, que em nome de tudo o que é certo, de tudo o que é belo e de tudo o que é sagrado, explode uma bomba atada ao próprio corpo e mancha de sangue e terror a vida de inocentes, ou, mesmo, da de Davi que agora, gigante, vai a forra contra milhares de Golias inocente no sul do Líbano.


Exagerado? Pode ser. Afinal não matei ninguém.


Mas o fato serve para evidenciar como se pode cometer enormes injustiças, mesmo quando não se quer nada mais do que a própria justiça, seja em nome da fé, da cidadania, da família ou de qualquer outro nobre valor.


Ocorre é que fui eu quem desrespeitou um dos mais sagrado direito do ser humano,
o direito fundamental de errar. Pois quem não erra?


É como diz a canção: “...Já não tenho dedos pra contar / De quantos barrancos despenquei /
E quantas pedras me atiraram / Ou quantas atirei...” (Lulu Santos).


E quem nunca errou que atire a primeira pedra!


Fica, então, a reflexão para esse feriado de carnaval.



Fraterno Abraço a todos.

3.2.12

Fanfarra e Cesto de Samson.

Prezados Amigos,

Vejo que muita gente, dos mais heterogênicos extratos sociais e culturais, recebeu com entusiasmo e, por que não dizer, com certo sentimento de revanche, a decisão em que o STF “manteve a competência do CNJ”.

Isso é bem compreensível quando da parte de pessoas sem familiaridade com questões jurídicas. É de se compreender, pois, que quem somente tenha contato com o tema por intermédio da mídia rasteira, muito mais afeita ao sensacionalismo inconsequente do que à análise serena e exposição isenta dos fatos, sinta, nesse momento, o gosto da desforra contra um “Judiciário tão viciado”.

Mas, sinceramente, é de se alarmar quando homens e mulheres de notório saber jurídico aderem ao “oba-oba” de setores da sociedade que pouco, ou quase nada, conseguem alcançar da complexidade da questão e da profundidade e amplitude das consequências, que decisão de tal importância possui.

Surpreende-me, mesmo, a forma intemperada e irrefletida com que diletos Colegas Advogados, alguns, inclusive, Representantes da Classe, Magistrados e outros Operadores do Direito, têm se reportado ao caso. Hão festejado referida decisão como se ela representasse um golpe certeiro, a sabre de luz, no manto opressor do “Lado Negro da Força”! E quando não tão visceral, a comemoração toma ares de torcida desportiva, tipo, Ceará 5 X 1 Tiradentes; CNJ 6 x 5 Corregedorias etc...

No entanto, o mais grave ver os operadores do direito, cujo prestígio social repousa no apurado senso crítico e tradicional temperança, deixem-se turva o discernimento pela fanfarra dos que manipulam a opinião pública desse país e não se deterem, sequer um minuto, sobre o aspecto da decisão que desobriga o CNJ de motivar os seus atos e permite que ele escolha arbitrariamente a reclamação que irá atende, convertendo referido órgão num verdadeiro Tribunal Révolutionnaire.

E o que me resta é advertir aos que tomam parte nessa fanfarra, cuidado com o cesto de Samson, pois, a julgar pelo que vejo, não tarda e o CNJ começará a admitir reclamações também contra advogados, promotores, jornalistas, blogeiros, médicos, contabilistas, porteiros, cléricos, atletas etc...

2.2.12

OAB, Fórum Clóvis Beviláqua e o "Fim da Indignidade"...

Prezados Amigos,

Por todos os meios "internéticos" recebi eufóricas mensagens de membros da Diligente Diretoria da OAB/CE dando conta do “fim da indignidade” do atendimento por via das apelidadas “bilheterias”, no Fórum Clóvis Beviláqua. Diziam as mensagens que o Diretor do Fórum atendeu às reivindicações da OAB e mandou instalar local condigno para o atendimentos aos causídicos.

Confesso que me deixei contagiar por tal euforia. Finalmente, seriam restabelecidas as mínimas condições de trabalho para o Advogado, que não pode se furtar às peregrinações forenses na tentativa heróica de impulsionar os feitos, já que, com perdão do trocadilho, o “impulso oficial” é manter-se inerte!

Ontem, porém, qual não fora a minha decepção! Depois de breve período de descanso, de volta à rotina de trabalho, dirigi-me ao Fórum CB, iria a uma das Varas de Família. Lá chegando, o que vi? O “fim da indignidade”? Longe disso! Conforme se pode ver na foto anexa a esse post, o que havia eram minúsculos balconetes, mal recostados às malsinadas “bilheterias”!

Logo, então, a decepção compartilhou espaço com uma curiosidade. Será que os nobres colegas não viram no que resultou, na prática, o que eles chamaram de “fim da indignidade”? Ou eles viram e se convenceram de que acabou mesmo a indignidade? Ou, ainda, eles têm consciência da realidade, mas divulgam versão dos fatos desconexa desta por motivos inconfessáveis?

Dúvida tormentosa! Por demais, desconfortável! Pois, no primeiro caso, o alarde precipitado do “final da indignidade” seria uma grande garfe, para não dizer imprudência, daquelas que o advogado não tem o direito de cometer.

Porém, se eles viram o estado das coisas e se convenceram de que acabou mesmo a indignidade, o problema é sério! Muito mais preocupante do que uma simples garfe ou imprudência. Significa que os representantes da classe teriam perdido o senso axiológico do que seria dignidade profissional.

Homens da Envergadura do nosso Presidente, Dr. Valdetario Andrade Monteiro, do nosso Secretário Geral, Dr. Cleto Gomes, além de outros Ilustres Colegas e Amigos, teriam esquecido no passado, não tão longínquo, o que constituiria o mínimo necessário ao livre e desembaraçado exercício da profissão!

Já, em relação à última hipótese, recuso-me a acreditar que homens de meritórios predicados como os citados tenham consciência da realidade, mas divulguem versão light dos fatos por movidos por interesses menores. Como não acredito nisso, abstenho-me de me demorar nessa conjectura, apesar de ela insistir em me ocorrer.

O fato é que, estou entre a decepção e a dúvida; entre a realidade e o “fim da indignidade”; e com a suspeita de que a situação pouco ou nada mudará, tendo eu e milhares de colegas que nos submeter, por tempo indeterminado, às precárias condições de trabalho no Fórum Clóvis Beviláqua, enquanto, por aí, festeja-se o que não se viu!

Agora, se me dão a honra, novamente, com a palavra Presidente, Dr. Valdetario Andrade Monteiro, do nosso Secretário Geral, Dr. Cleto Gomes...